5. INTERNACIONAL 14.11.12

1. A FORA DA VOZ DE TODOS
2. SEATTLE, A NOVA AMSTERD
3. UM ABISMO PARA DOIS

1. A FORA DA VOZ DE TODOS
Com a reeleio de Obama, a democracia americana exibe ao mundo sua capacidade de dar voz s minorias e refletir as dramticas mudanas demogrficas em curso nos
EUA, um pas cada vez mais latino, mais mltiplo e mais tolerante com a diversidade tnica e sexual.
ANDR PETRY, DE NOVA YORK

     Thank you.  bo. 
     A conta do presidente Barack Obama no Twitter, o microblog, diz que os tutes enviados pelo presidente em pessoa so sempre assinados com suas iniciais em letras 
minsculas  bo. Na noite de tera-feira passada, logo depois que as emissoras de TV encerraram as projees informando que o presidente estava reeleito para mais 
quatro anos, Obama postou o tute com o agradecimento acima. Minutos antes de fazer o discurso da vitria diante de uma multido em Chicago, ele voltou a se comunicar 
com os eleitores pela rede. Mandou um e-mail certeiro: Vocs fizeram isso acontecer. No foi destino nem acidente. Com 61 milhes de votos, apenas 3 milhes a 
mais que seu adversrio, o republicano Mitt Romney, Obama obteve seu segundo mandato apesar de tudo  da economia que no decola, do desemprego que se mantm nas 
alturas e do consenso nacional de que o pas est pior que antes. Mesmo assim, Obama tem razo ao dizer que no foi destino nem acidente. Sua vitria  uma consequncia
da demografia.
     O democrata Barack Hussein Obama, 51 anos, ganhou um segundo mandato porque teve votao estupenda nos segmentos que mais crescem na populao americana. Ganhou 
entre as mulheres, os jovens, os negros, os asiticos e os latinos (veja o quadro na pg. 86). No eleitorado branco, anglo-saxnico e protestante, aquele associado 
ao perfil tpico da populao americana, Obama perdeu feio. Recebeu 39% dos votos, contra 59% de Romney. Eis o tremendo impacto poltico da nova demografia americana: 
para eleger-se presidente no  mais necessrio ter maioria do eleitorado branco. J em 2008, Obama ganhou com 43% do voto branco. Tanto antes como agora, compensou 
a m votao dos brancos com um caminho de votos nos segmentos da populao que esto mudando a cara dos EUA.
     Com a eleio da semana passada, a democracia americana exibiu ao mundo sua extraordinria capacidade de dar voz s minorias. Os brancos ainda so mais de 60% 
da populao, mas no so hegemnicos. Os Estados Unidos so um pas cada vez mais multitnico, mais aberto  participao da mulher, mais tolerante com a diversidade, 
mais distante do passado de intolerncia racial ou religiosa. O conservadorismo feroz propugnado por uma certa base do Partido Republicano  cada vez mais estranho 
ao pedao mais expressivo da sociedade americana. O saldo  dramtico: nos ltimos seis pleitos presidenciais, os republicanos perderam em cinco no voto popular. 
No discurso da vitria, Obama captou a mensagem: Acredito que podemos cumprir a promessa fundadora desta nao: a ideia de que, se voc est disposto a trabalhar 
muito, no importa quem voc , de onde vem, qual  sua aparncia ou quem voc ama. No importa se  negro ou branco, hispnico, asitico ou indgena, jovem, velho, 
rico ou pobre, saudvel, deficiente, gay ou heterossexual.
     H trinta anos, talvez vinte, s um doido diria que em 2012 a Casa Branca seria disputada entre um negro e um mrmon  e o bunker de baixarias das campanhas 
no disparou um nico petardo sobre raa ou f. Os americanos percorreram um longo caminho para chegar a isso, da perseguio aos mrmons no sculo XIX  eleio 
do primeiro presidente catlico, John Kennedy, em 1960. Da abolio da escravatura ao triunfo dos direitos civis e ao fim da segregao racial na dcada de 60. O 
resultado  uma sociedade que, com avanos e recuos, pois nada em poltica  linear, alarga os horizontes da experincia humana.
     O Senado, pela primeira vez, ter vinte mulheres. Na legislatura atual, h dezessete. Entre as novatas estar Tammy Baldwin, a primeira mulher abertamente homossexual 
a concorrer ao Senado. Na Cmara dos Deputados, a bancada democrata, tambm pela primeira vez, no ser formada por uma maioria de brancos do sexo masculino. Nos 
estados do Maine e Maryland, os eleitores aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo. At aqui, os estados americanos que legalizaram o casamento gay o fizeram 
atravs do Parlamento estadual ou da Justia.  a primeira vez que ganha a chancela do voto popular. No Colorado, os eleitores legalizaram a maconha. O estado de 
Washington, enclave liberal na costa do Pacfico, aprovou as duas coisas numa tacada s: legalizou a maconha e o casamento gay (veja a reportagem na pg. 94).
     A mudana demogrfica mais notvel  o crescimento dos latinos, ou hispnicos. Obama fez comerciais eleitorais em espanhol  Soy Barack Obama y apruebo este 
mensaje  e Ronmey tambm fez anncios dirigidos  comunidade hispnica, mas tropeou ao apoiar uma lei brutal contra os imigrantes no Arizona. Para enfrentar o 
problema dos 12 milhes de imigrantes ilegais, Romney fez pior. Defendeu a autodeportao: tornar a vida dos ilegais to miservel que eles prprios decidiriam 
deixar o pas. No surpreende que tenha recebido 27% dos votos latinos. Na primeira dcada do sculo, a populao latina foi a que mais cresceu nos Estados Unidos. 
At 2050, passar de 30% da populao. At l, as minorias de hoje sero a maioria. Os republicanos no se entendem sobre como tratar os latinos, mas, mais cedo 
ou mais tarde, vo se adaptar, prev o cientista poltico Ruy Teixeira, um dos primeiros a escrever sobre o impacto pr-democratas da nova demografia.
     Por natureza, transformaes demogrficas so lentas. Mas, mesmo no curto perodo entre 2008 e agora, houve mudanas que favoreceram Obama. Em quase todos os 
nove estados mais disputados do pas, houve crescimento do eleitorado latino (pr-Obama) e queda do eleitorado de trabalhadores brancos (anti-Obama). O presidente 
venceu em oito  a Flrida fechou a semana contando os votos, mas, mesmo l. Obama estava na frente. Com base nesse ajuste demogrfico, surgiu a ideia de que o Partido 
Democrata estaria no rumo de tornar-se uma fora majoritria e hegemnica.  altamente improvvel.
     Numa sociedade dinmica como a americana, s um segmento isolacionista fica imune s transformaes ao seu redor. Na dcada de 80, os trabalhadores que votavam 
nos democratas migraram para o republicano Ronald Reagan. Quando a direita crist comeou a tomar conta do Partido Republicano, os moderados eleitores dos subrbios 
se afastaram da legenda. Os prprios latinos,  medida que envelhecerem e ascenderem na estrutura socioeconmica, tendero a mudar sua viso. O cientista poltico 
Sean Trende, autor de Time Lost Majority (A Maioria Perdida), que trata desse fenmeno, sentencia: Na poltica americana, no existe maioria permanente.
     A demografia  dinmica, e no uma sentena a favor ou contra uma ou outra ideologia. Entre 2010 e 2015, a populao hispnica com mais de 20 anos aumentar 
em 5,4 milhes. Ponto para os democratas. Mas a populao branca com mais de 55 anos aumentar em 6,5 milhes. Ponto para os republicanos. Enquanto a camada de brancos 
mais jovens, entre 20 e 54 anos, declinar 3,4 milhes. Outro ponto para os republicanos. O professor Jack Goldstone, que recentemente lanou um livro sobre demografia 
poltica, afirma: Se os republicanos conseguirem entrar no eleitorado latino e aumentar sua atual vantagem entre os eleitores mais velhos, a demografia se volta 
a seu favor j na prxima eleio. Assim como os latinos podem virar republicanos, os mais velhos tambm podem virar democratas. Mas, por ora,  certo que os republicanos 
esto do lado errado: o povo, sistematicamente, tem rejeitado seus candidatos presidenciais.
     Obama assumiu um pas  beira da catstrofe: crise financeira monumental, recesso brutal e desemprego galopante. Termina o mandato tendo contornado a crise 
financeira e baixado um catatau de regulamentos para tentar frear o papelrio txico de Wall Street. A economia crescer cerca de 2% do PIB.  pouco, mas  melhor 
que a queda de quase 3% em 2009, ainda herana do antecessor. Em outubro, abriram-se 170.000 vagas, uma gota no oceano, mas Lambem melhor que a pulverizao de 800.000 
empregos em janeiro de 2009. Na frente externa, Obama limpou a sujeira deixada por George W. Bush. Encerrou a guerra no Iraque, encerra a guerra no Afeganisto at 
2014 e concentrou o combate ao terror nos terroristas. Na poltica domstica, por mais rejeio que a reforma do sistema de sade tenha gerado, Obama cumpriu uma 
promessa  e bandeira centenria dos democratas. A reforma  incompleta e acumula defeitos, mas encerrou um vexame americano: a existncia de 40 milhes de cidados 
sem cobertura de sade.
     Sua administrao, porm, revelou-se hostil ao mundo dos negcios, ao comrcio, ao mercado  em suma, ao capitalismo. Obama no teve, nem no exerccio do governo, 
nem na campanha eleitoral, um plano srio e crvel para combater o dficit. Nesses aspectos, o melhor que poder fazer no segundo mandato  aprender com os erros 
do primeiro. No Congresso, os republicanos fizeram uma oposio implacvel, mas o presidente no mostrou empenho nem nimo para vencer esse obstculo. A revista 
inglesa The Economist contabiliza: nas 104 partidas de golfe que Obama jogou desde que chegou  Casa Branca, s numa teve um deputado republicano como adversrio. 
Os ingleses conhecem a matria: no norte, nada  mais eficaz para amansar a oposio do que cortej-la no campo de golfe.
     Bom adversrio para Obama, mas mau candidato para os eleitores, Romney tentou apresentar-se como alternativa ao democrata, mas nunca soou verdadeiro. Chegou 
a ser belicoso em poltica externa e, em relao ao dficit, recorreu  matemgica de combat-lo cortando impostos e aumentando a despesa militar. Romney foi um 
candidato  procura de um discurso, sempre assustado com o ronco da ala conservadora do partido. Com isso, espantou os independentes e atropelou a nova demografia 
americana. Sua campanha soou hostil aos homossexuais e aos imigrantes, sensvel demais aos interesses do tubaronato de Wall Street e nunca conquistou a confiana 
do eleitorado feminino.
     O impacto da demografia  evidente na poltica americana, mas sua fora  ainda mais decisiva em outras partes do mundo. O demgrafo Richard Cincotta criou 
um modelo capaz de prever a probabilidade de um regime se democratizar a partir do perfil etrio de sua populao. As populaes mais velhas tendem a ter regimes 
mais democrticos que as populaes mais jovens. Cincotta previu que eram crescentes as chances de a Tunsia virar uma democracia liberal  isso antes da Primavera 
rabe. O modelo faz boas previses para a Lbia e o Egito, mas no para Iraque, Afeganisto e Imen, onde a mdia de idade da populao  baixa. A taxa de fertilidade 
tem enorme repercusso poltica. No conflito entre palestinos e israelenses, ela  acompanhada de perto. Em mdia, os israelenses tm menos filhos que os palestinos 
e sempre compensaram a desvantagem com o estmulo  imigrao. Mas h um segmento em Israel o dos judeus ultraortodoxos  que tem mais filhos que os palestinos. 
No por acaso, a influncia poltica dos ultraortodoxos s cresce.
     Desde 1950, o mundo vive uma mudana demogrfica sem precedentes. Na metade do sculo XXI, a frica ser um continente extraordinariamente populoso, com a Nigria 
 frente dos demais pases. A relao das naes mais populosas seguira mais ou menos a mesma, s que em ordem diferente: o Paquisto passar o Brasil, Bangladesh 
passar a Rssia. As previses, no entanto, so apenas previses. Para surpresa de boa parte dos demgrafos, a taxa de fertilidade dos pases ricos est aumentando, 
contrariamente  tendncia de queda. A entidade das Naes Unidas encarregada das projees populacionais elevou a taxa de fertilidade dos pases industrializados 
para 1,35 criana por mulher em 2006. Dois anos depois, aumentou-a para 1,64. Em 2010, aplicou novo acrscimo, dessa vez para 1,71. O aumento da fertilidade inclui 
os EUA. Se a previso se materializar, o perfil demogrfico produzir novos desdobramentos na economia e na poltica.
     Por ora, o que se sabe  que a campanha presidencial, encerrada depois de ter consumido mais de 2 bilhes de dlares, manteve quase tudo no mesmo lugar: Obama 
na Casa Branca, democratas com maioria no Senado e republicanos com maioria na Cmara. Como o cenrio  igual, teme-se que democratas e republicanos permaneam incapazes 
de chegar a um acordo  qualquer acordo. Nos dias seguintes  reeleio, Obama mandou sinais conciliatrios  oposio, que respondeu com cordialidade. O primeiro 
desafio ser o chamado abismo fiscal (veja a reportagem na pg. 96).  um bom recomeo, mas ser preciso uma mudana real de postura tanto de republicanos quanto 
de Obama  essa contradio viva entre ambio e cautela. Que ningum se deixe iludir pela enganadora modstia da assinatura  bo. 

QUE VIVA OBAMA!
A base eleitoral de Obama se manteve, s que menor  com exceo do seu eleitorado mais fiel, os latinos

OBAMA
Delegados: 303
Voto popular: 61,2 milhes

ROMNEY
Delegados: 206
Voto popular: 58,2 milhes

O DESEMPENHO DE OBAMA
Negros - Em 2012: 93%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): -2
Hispnicos - Em 2012: 71%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): +4
Brancos - Em 2012: 39%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): -4
Homens - Em 2012: 45%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): -4
Mulheres - Em 2012: 55%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): -1
De 18 a 29 anos - Em 2012: 60%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): -6
De 30 a 44 anos - Em 2012: 52%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): 0
Casados - Em 2012: 42%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): -5
Solteiros - Em 2012: 62%; Em relao a 2008 (em pontos porcentuais): -3

Em 2008  Entre as minorias, Obama ganhou com 80% dos votos, no plano nacional.  Entre os assalariados brancos, perdeu por uma diferena de 20 pontos porcentuais
Em 2012  Nos nove estados mais disputados, as minorias aumentaram e os assalariados brancos diminuram

Os nmeros em cada estado (em pontos porcentuais)
1- Nevada: MINORIAS +9; BRANCOS -5
2- Colorado: MINORIAS +3; BRANCOS -3
3- Iowa: MINORIAS estvel; BRANCOS -1
4- Wisconsin: MINORIAS +3; BRANCOS -7
5- Ohio: MINORIAS estvel; BRANCOS +1
6- Pensilvnia: MINORIAS +2; BRANCOS -2
7- New Hampshire: MINORIAS estvel; BRANCOS -4
8- Virgnia: MINORIAS +1; BRANCOS -2
9- Flrida: MINORIAS +4; BRANCOS -3

OS ESTADOS UNIDOS DA AMRICA LATINA 
Os latinos, ou hispnicos, so o segmento que mais cresce na populao americana

1970
Latinos: 4%
Brancos: 83%
Outros: 13%

1980
Latinos: 7%
Brancos: 80%
Outros: 13%

1990
Latinos: 9%
Brancos: 76%
Outros: 15%

2000
Latinos: 13%
Brancos: 69%
Outros: 18%

2010
Latinos: 16%
Brancos: 64%
Outros: 20%

2020 (projeo)
Latinos: 20%
Brancos: 59%
Outros: 21%

2030 (projeo)
Latinos: 23%
Brancos: 55%
Outros: 22%

2040 (projeo)
Latinos: 27%
Brancos: 46%
Outros: 23%

2050 (projeo)
Latinos: 31%
Brancos: 46%
Outros: 23%
Fontes: Lookung Forward: Trends, Transitions, Implications; US Census Bureau; Ruy Teixeira, cientista poltico.


2. SEATTLE, A NOVA AMSTERD
Em plebiscitos, dois estados aprovam o casamento gay e um legaliza o consumo de maconha. Washington, na costa oeste, faz as duas coisas numa tacada s.

     Os quase 7 milhes de habitantes do estado de Washington, situado na costa do Pacfico e na fronteira com o Canad, acordaram surpresos na quarta-feira passada: 
os eleitores, numa tacada s, haviam legalizado a maconha e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Washington  um estado francamente favorvel aos democratas. 
Seattle, sua maior cidade, entrou para o mapa da poltica mundial quando hospedou a maior manifestao popular de repdio  globalizao nos Estados Unidos, em 1999, 
durante encontro da Organizao Mundial do Comrcio. Ningum se espantaria com a aprovao de uma ou outra medida. Mas a aprovao das duas, ao mesmo tempo, foi 
uma surpresa. Somos mais progressistas que o Canad! Mais progressistas que Amsterd!, celebrou um articulista local. Um recado para a tia do interior que no 
sabe: Amsterd  a capital mundial da maconha legal, mas est comeando a restringi aqui e ali, a antiga liberalidade.
     Outros estados americanos aprovaram uma coisa ou outra. No Colorado, a maconha tambm foi legalizada. Em Minnesota, uma proposta de inscrever na Constituio 
estadual que casamento  s entre um homem e uma mulher foi rejeitada. No Maine e em Maryland, os eleitores aprovaram o casamento gay, na primeira vez que tal medida 
ganhou nas urnas  depois de quase trinta tentativas em referendos. Na superfcie, tudo sinaliza uma onda avassaladora contra o conservadorismo social, mas a dinmica 
 um pouco mais complexa. Nos Estados Unidos, em matria de comportamento, a esquerda costuma contar com o apoio da direita libertria, que prega a mais ampla liberdade 
individual, da prostituio  herona. No Colorado, estado em que os republicanos ainda tm respeitvel eleitorado, essa unio explica a legalizao da maconha. 
Em Washington, a diviso das foras que normalmente se opem  legalizao da erva  mes, policiais  desta vez abriu caminho para a aprovao.
     A medida  a mais liberal j aprovada nos Estados Unidos. Qualquer pessoa maior de 21 anos poder fumar maconha  e no apenas port-la  sem risco de punio. 
Ningum sabe como ser a implementao da maconha legal, pois a legislao federal americana probe o consumo da droga. Com bom humor, o governador do Colorado, 
o democrata John Hickenlooper, que se ops  legalizao, alertou para o choque de leis e pediu calma  galera da larica: No avancem ainda no pacote de biscoitos 
Cheetos ou Goldfish. Se a maconha legal for mesmo implementada, Colorado e Washington serviro como um laboratrio para o resto dos Estados Unidos e do mundo, num 
momento em que a discusso sobre a legalizao da erva, e mesmo de outras drogas, ganha ateno em fruns internacionais. Na Amrica Latina, acossada pela violncia 
do narcotrfico, a legalizao  um assunto recorrente.
     No estado de Washington, a lei  criteriosa. Prev a implantao de dois programas: um de educao sobre a droga e outro de preveno ao consumo, alm da criao 
da Marijuana Help Line, que oferecer tratamento e ajuda aos dependentes. Uma agncia do governo vai regular o plantio, a produo e a venda da erva. A avaliao 
da experincia tambm ser rigorosa. A lei cria uma entidade para estudar o comportamento e as atitudes dos consumidores, fornecendo dados para definir o preo e 
o imposto sobre a maconha e evitar o surgimento de um mercado negro. Para acumular conhecimento, as duas maiores universidades de Washington tero verba para fazer 
pesquisas sobre o assunto. Entusiastas da erva j comparam a legalizao da maconha com a proibio do lcool nos EUA em 1920. Trs anos depois, com o fracasso da 
medida, Nova York voltou a legalizar o lcool. Em 1933, o pas liberou geral. 


3. UM ABISMO PARA DOIS
Democratas e republicanos vo juntos tapar o buraco das contas pblicas. Vai ter de ser de uma tacada s, pois, como ensinou Benjamin Disraeli, tentar saltar sobre 
um precipcio com duas passadas  suicdio.
GIULIANO GUANDALINI

     Os primeiros quatro anos do governo Barack Obama viram uma radicalizao sem precedentes entre republicanos e democratas. Para uma economia abatida pela mais 
profunda crise em ao menos duas geraes, a polarizao poltica se expressou na impossibilidade de alcanar um terreno comum para aprovar as reformas necessrias 
ao crescimento duradouro. Vitorioso, Obama ter o direito a um novo e nico mandato de quatro anos e deixa de ser um candidato na Casa Branca. A trgua ps-eleitoral 
traz a oportunidade para aprovar os projetos de equilbrio das finanas pblicas e incentivo aos investimentos. O primeiro teste ser evitar que o pas mergulhe 
no fiscal cliff  literalmente, abismo fiscal.
     Em janeiro de 2013, chega ao fim a srie de subsdios, redues de impostos e incentivos concedidos nos ltimos anos, alguns deles iniciados ainda no governo 
de George W. Bush. Ao mesmo tempo, entram em vigor novos tributos, como a taxa adicional para financiar o servio pblico de sade. No total, perto de 700 bilhes 
de dlares deixaro de circular, da noite para o dia, na economia. Para um pas cujo dficit oramentrio supera 1 trilho de dlares por ano, a combinao de queda 
nos gastos e aumento dos impostos seria um bem-vindo ajuste fiscal. Porm, o arrocho, se executado de maneira abrupta e imediata, poder solapar a ainda tmida recuperao. 
Segundo estimativas do Congressional Budget Office, rgo do Congresso dedicado  anlise oramentria, o abismo fiscal traz consigo o potencial de afundar o pas 
novamente na recesso. O PIB, em vez de crescer 1,7% em 2013, teria uma queda de 0,5%, e a taxa de desemprego subiria novamente para 9,1%.
     Os democratas mantiveram a maioria no Senado, mas a oposio republicana preservou tambm ampla superioridade na Cmara. Obama precisar costurar um acordo 
com os republicanos para escapar desse desfiladeiro. Os republicanos acenaram com a possibilidade de apoiar uma reforma tributria, desde que o presidente abra mo 
da ampliao de subsdios e benefcios. Com a vitria de Obama, podemos esperar a sua defesa de uma variedade de polticas focadas na redistribuio de renda, com 
o aumento do imposto para os ricos e a transferncia, por meio de programas sociais, para os mais pobres, afirma o economista Kenneth Rogoff, de Harvard. Se Obama 
insistir nessa frmula, a resistncia na Cmara ser grande. Um dos pilares da campanha dos republicanos foi a oposio ao aumento de tributos. Eles argumentam que 
fazer os ricos pagar mais impostos pouco ajudar na reduo do dficit e contribuir para afugentar os investimentos. Por isso, conclui Rogoff: Haver alguma negociao 
para evitar o abismo fiscal. No vejo, no entanto, a possibilidade de um acordo amplo. O risco  continuar num ritmo de crescimento tpido.
     A taxa de desemprego segue ao redor de 8%, exatamente onde estava no incio do governo Obama, a despeito dos incentivos econmicos sem paralelos e dos 5 trilhes 
de dlares de aumento da dvida pblica. O Federal Reserve (o banco central do pas) despejou 2 trilhes de dlares na economia para evitar uma depresso, mas a 
maior pane do dinheiro ficou empoada, parada nos caixas das empresas. No haver recuperao sustentvel se esses recursos no irrigarem a atividade empresarial 
e o consumo. Para isso ser necessrio superar as incertezas do ambiente econmico, como a possibilidade do abismo fiscal e a ameaa de serem criados novos impostos 
e regulaes sobre a atividade empresarial e financeira. Diz o economista Luigi Zingales, da Universidade de Chicago: Livre de preocupaes eleitorais, espera-se 
que Obama volte a ser aquilo que prometera em sua primeira campanha, um presidente que busque a cooperao poltica e trate seus eleitores como cidados adultos 
e responsveis, sem vender iluses.
     Estar  prova mais uma vez a capacidade dos americanos de corrigir os seus prprios erros, como disse o historiador francs Alexis de Tocqueville, citado na 
Carta ao Leitor desta edio (veja na pg. 14). Ou como afirmou o estadista ingls Winston Churchill, a respeito da relutncia dos Estados Unidos em entrar na II 
Guerra: Os americanos sempre fazem a coisa certa, depois de terem esgotado as alternativas. 

 Em 2013, chegar ao fim uma srie de estmulos econmicos concedidos nos EUA, e novos impostos passaro a ser cobrados, retirando 665 bilhes de dlares da economia 
(valores em dlares)

REDUO DE GASTOS
20 bilhes  Pagamentos a mdicos
40 bilhes  Despesas no obrigatrias
40 bilhes  Incentivos aos investimentos
50 bilhes  Ajuda aos desempregados
55 bilhes  Militares

AUMENTO DE IMPOSTOS
435 bilhes  Sobre renda e salrios

EFEITOS NA ECONOMIA
Variao do PIB em 2012: De +1,7% para -0,5%
Desemprego: De 8% para 9,1%
Fonte estimativas do Congresso Budget Office
